sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

um conto de véspera de natal

O trem havia chegado e ela acabara de entrar e se sentar. O banco na sua frente estava vago quando ele entrou, chamando imediatamente sua atenção. Tinha o cabelo cacheado, usava óculos escuros e se vestia como todos os intelectuais que conseguiam ser um pouco legais se vestiam. Ele andou na sua direção, mas depois se virou e se sentou em outro banco vazio, que era longe e ficava de costas para o dela. Sendo uma grande sonhadora e tendo usado aqueles breves segundos em que registrara informações sobre o estranho para aplicar uma trama pré-estabelecida de doces encontros de almas-gêmeas em situações pouco prováveis, ela não pode evitar se decepcionar um pouco, e muito menos voltar a se animar quando ele se levantou do lugar recentemente escolhido para finalmente se sentar no banco em frente ao seu. Ele tirou os óculos escuros, o que permitiu que, em um vislumbre rápido, ela pudesse ver suas feições, que para seu contentamento eram bastante agradáveis. Ela, que já estava usando seus fones de ouvido, ficou em dúvida se estava encantada ou decepcionada com o clichê quando ele abriu Manifesto do Partido Comunista. Decidiu então, parte porque era o que já planejava fazer desde o início e parte porque ela queria mostrar que também fazia parte da população que se importava em ler ago, colocar os pés em cima do banco e pegar seu O Hobbit e retomar a leitura, mesmo que se interrompesse de tempos em tempos para olhá-lo novamente ou para simplesmente imaginar como seria se eles começassem a conversar. Mas sua estação chegou, e ela guardou o livro e se levantou, e quando ela desceu pode ver que ele estava pegando o lugar que ela estivera ocupando. Sorriu e resolveu escrever sobre o episódio, por mais completamente banal que ele fosse.

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