quarta-feira, 17 de março de 2010

O técnico, ou o Liceu.

Esse blog, no início, foi criado quase exclusivamente para reclamar do Liceu. Ok, não para isso, mas no começo era só o que tinha. Não vou falar que eu não tinha razão em reclamar, claro, mas hoje em dia acho que é muito certo alguém ir para o ensino técnico, justamente para sofrer como eu sofria. Vamos lá, elaborando.
A maioria das pessoas que entram em um ensino técnico é para poder trabalhar depois, até por isso que ele também chama profissionalizante. Algumas outras entram, bom, pelo menos onde eu estudava elas entravam porque era a única maneira de estudar de graça no Liceu. Hoje eu penso que, quando eu tiver filhos, eu vou querer que eles façam técnico mesmo que não tenham que trabalhar, e mesmo que façam o ensino médio em uma ótima escola. Por quê? Porque mesmo que você não trabalhe com o que você aprendeu, só o processo de aprender aquilo já vale por tudo.
Eu sofri muito no meu primeiro ano do técnico. Eu tinha passado os últimos dez anos estudando em escolas particulares, que eram boas, e tinha sido a melhor aluna. Era fácil, sabe, tinha apostilas, eu tinha as tardes livres para estudar (não que eu o fizesse). E então eu entrei no técnico e bom, não importa muito o curso que você faça, ele é diferente de tudo que já te ensinaram. É novo, e era difícil, muito difícil.
Não só a complexidade do assunto, não só a quantidade de matérias, não só a carga horária em período semi-integral, mas o método dos professores. Não tinham apostilas, tinham livros, livros técnicos, escritos em linguagem técnica, que eu ainda não sabia ler. Tinham pesquisas na internet, que também estavam em linguagem técnica. Eu tinha que pensar diferente, de uma maneira que eu não estava acostumada. E não é sobre ter uma visão de mundo estreita, é que minha mente não sabia pensar naqueles termos.
E então tinha os cálculos. Cálculo era algo que eu sabia, mas eletrônica precisava de um tipo de cálculo que não ensinam no fundamental, ensinam no final do colegial e muitas escolas nunca sonham em ensinar. E lá estava eu, no primeiro ano, aprendendo números complexos, matrizes e determinantes, para usar em outras matérias. E depois, no segundo ano, aprendendo números binários e lógica booleana, que a maioria das pessoas vai passar o colegial sem nem ter idéia de como funciona.
Não é uma questão do ensino nas escolas públicas ser ruim, é que mesmo o das escolas particulares, e das boas, a maioria nunca vai ensinar um aluno como uma escola técnica ensina. Meu professor do ensino superior disse que a FATEC não forma alunos, forja eles, e o Liceu fazia a mesma coisa. Ele pegava adolescentes acostumados a estudar seis horas por dia e serem medianamente cobrados naquilo que aprendiam, e colocava eles não só para aprender o currículo padrão como para aprender o currículo técnico. O orientador disse isso, na entrevista que cada aluno tinha antes de entrar lá (entrevista individual, porque era algo que o Liceu fazia na época), que naquela escola não ia adiantar só assistir as aulas e ir levando, e sim que ela ia exigir mais de você. Acho que foi por isso que o Liceu tinha a fama que tinha.
E depois de um tempo a gente realmente ia aprendendo a lidar com a situação. Acho que Eletrônica Geral foi a matéria que mais me ensinou, em todo meu tempo de estudo. Foi meu primeiro zero, minha primeira recuperação, minha primeira matéria que eu chorava porque não entendia, tentava e não entendia (e justo eu, que era a melhor da sala no fundamental!), e que tive que chorar e insistir até começar a entender. E quando a gente reclamava o professor se limitava a dizer "A vida é dura", e sorrir. E eu nunca cheguei a agradecer o ABE por ter feito isso por mim, mas acho que ele sabia, porque foi ele quem a sala escolheu depois para ser nosso paraninfo, mesmo depois de anos xingando ele e a matéria dele, porque afinal, uma hora a gente aprendeu.
Eu sei que todo mundo tem contato com bons professores, os legais, os que tem prazer de ensinar e tornam as aulas interessantes. A maioria dos meus não eram legais, eram exigentes, impunham respeito, faziam provas difíceis e continuavam sendo os melhores professores. Porque eles não aceitavam que a gente não tivesse capacidade para entender aquilo, e hoje eu vejo que isso é ter respeito e fé nos próprios alunos. Eles não aceitavam ensinar para pessoas que não investiam em si mesmas. Diziam coisas sobre honrar o nome da escola, quando queriam dizer para honrarmos estarmos estudando ali e depois termos nos formado ali. 
Enfim, hoje eu faço faculdade e basicamente estou passando por tudo de novo, só que dessa vez eu já sei o que tenho que fazer, e isso me poupa boa parte do sofrimento. Acho que me arrependo um pouco por não ter dado o valor que o técnico merecia quando eu ainda estava lá, o que teria evitado grande parte da minha revolta com ele, mas pelo menos hoje eu sei que foi o melhor, para mim. Melhor do que se eu tivesse continuado na mesma escola do fundamental, o que sim, faria que eu estivesse mais preparada para o vestibular, mas nunca faria com que eu aprendesse a dar o devido valor ao estudo. 
Quando eu e meus amigos nos encontramos a gente ainda reclama do Liceu, fala mal, critica várias coisas e tudo mais, mas acho que todos nós sabemos o que ele fez pela gente. Ele mudou todos nós, de uma maneira ou de outra. E apesar de tudo, de todo o stress, as crises de pânico e os níveis absurdos de ansiedade, aqueles foram três dos melhores anos da minha vida, e isso nunca vai mudar.

2 comentários:

.moony. disse...

Cara... tu resumiu os últimos três anos da minha vida aqui, sem mentira.

A gente se lasca, aprende que ter sido a primeira aluna da classe no fundamental não significa nada ali, fica andando por aí com livros de 1000 páginas numa linguagem praticamente incompreensível num primeiro momento (estou olhando pra um agora, e tenho prova de Sistemas Operacionais terça-feira! D:) e se sente o pior lixo da face da terra porque simplesmente não consegue...

Enfim, te amo por isso, HAHAHA. <3

Cami Rocha disse...

Transformação e crescimento. (L)