domingo, 25 de abril de 2010

Sobre crueldade infantil, ou uma história vinda do nada.

Eu devia ter 8, 9 anos e tinha acabado de começar a andar de bicicleta - sim, em algum momento da minha vida, eu sabia andar de bicicleta, e não, ao contrário do que dizem, eu realmente não sei mais - e passava bastante tempo, até, andando na rua com ela. Estava em um nível tão avançado que eu tinha ido até a bicicletaria e instalado uma buzininha vermelha, muito simpática, que me elevava ao nível de ciclista consciente e fazia eu deixar de ser noob, ao menos ao meu ver.
Então, estava eu um dia, andando pela rua, no horário que as crianças que estudavam a tarde estavam voltando para casa. Não gostava muito do horário, porque a rua ficava mais lotada e era menos divertido, mas tudo bem. Até que veio esse menino e implicou com a buzina da minha bicicleta, começando a apertar insistentemente e impedindo que eu continuasse a pedalar. Facilmente irritável como eu sempre fui, comecei a ficar mais e mais nervosa com o menino, um garoto moreno e magrinho, segurando o material escolar, da minha idade, até que, no meu maior ato de crueldade infantil, comecei:
"Vem cá, em que escola você estuda?"
O garoto respondeu, sem pensar muito, e mais preocupado com a maldita buzina, que estudava no Alberto. O Alberto é uma das escolas públicas aqui perto da minha casa, e inclusive tinha sido perto dela onde eu tinha comprado a buzina. Enfim, eu estudava numa escola particular considerada uma das três melhores da região - e sim, isso não quer dizer nada. Eu não tinha nenhuma noção de status por estudar em escola particular, mas sabia que estudava em uma porque elas eram melhores que as públicas, até porque se não fossem minha mãe não pagaria. Tomada por um espírito de superioridade e uma vontade de fazer o garoto sumir, disse:
"Nossa, o Alberto é uma escola horrível. Eu estudo no Objetivo, sabe, que é muito melhor. Pobre de você, que tem que estudar lá".
Aí sim, o garoto parou de apertar a buzina, para me olhar. Ficou um tempo sem falar nada, digerindo o que eu tinha dito, e não sei por qual motivo, se era por querer provar que o dele era melhor, ou porque ele realmente gostava do colégio, disse - "Não, o Alberto é a melhor escola do mundo", e eu - "Não é não, e todo mundo sabe disso".
Acho que eu nunca tinha visto alguém tão magoado, porque o olhar do garoto me marcou. Ele deu as costas e foi embora, continuando o caminho para casa dele, e eu desisti de brincar na rua e entrei na minha, instantaneamente arrependida. Eu sabia que tinha feito algo errado e machucado ele, e queria pedir desculpas e dizer que o Alberto era sim, uma ótima escola, mas eu nunca mais vi o garoto. Até hoje, quando eu lembro disso, me sinto mal por ter agido daquele jeito, e espero, de verdade, que ele tenha desejado mostrar para mim o quão melhor a escola dele era, que hoje ele esteja em uma faculdade muito foda, e que seja mais bem sucedido que a garota mimada que desdenhou dele quando ele era menor.
Claro que ele também pode ter esquecido de mim assim que chegou em casa, mas eu não tenho como saber o que aconteceu com ele. Porque ele parou de passar na minha rua, eu parei de andar de bicicleta. Mas eu ainda me sinto mal toda vez que lembro daquele dia. Se serve para alguma coisa, eu nunca magoei alguém intencionalmente, depois disso. Pelo contrário, sou completamente incapaz de faze-lo. Não consigo lamentar ter sido, algum dia, também.

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