domingo, 7 de agosto de 2011

Sobre viajar sozinha

Eu estava lendo os comentários no post sobre Barcelona do JustLia e notei muitas garotas falando sobre como tinham medo de ficar com estranhos num quarto de hostel, ou sobre como era ruim viajar sozinha. Eu não sei muito de viajar, sabe, mas como a principal viagem da minha vida (até agora) foi internacional, sozinha, e com hospedagem num hostel em um quarto cheio de estranhos dos quais seis eram homens, eu acho que tenho algum conhecimento de causa para falar sobre o assunto.

Tudo bem, era Buenos Aires. Quando minha mãe surtou com a viagem - claro que ela iria surtar, e claro que eu comprei a passagem sem ela saber - meu principal argumento tranquilizador foi "É mais rápido chegar lá do que chegar na Bahia, pelo amor. E eles basicamente falam português, não é tão perigoso assim". Isso não mudou muita coisa, e ela tinha razão, acho. Era outro país, eu não era cidadã de lá, espanhol não é português e sempre tem histórias de horror sobre turistas que são sequestrados e mortos e coisas assim. Quer dizer,  uma garota de 18 anos (eu ia fazer 19 lá), numa cidade que ela não conhece e ninguém conhece ela, hospedada num hostel cheio de estranhos, é a premissa de um filme de terror. Todo mundo achou que eu era louca (com algumas exceções para alguns amigos, mas eles não são muito normais também). Mas eu queria muito viajar, eu precisava viajar. Então eu fui mesmo assim.
Como eu não queria dar razão para minha família que dizia que eu ira morrer/ser assaltada/passar fome/ter uma péssima viagem, eu fui atrás de saber para onde eu estava indo, certo. E eu fiz isso basicamente com a ajuda do fórum Mochileiros. Muita gente lá estava indo para Buenos Aires na mesma época que eu, e muita gente tinha muita experiência em viajar independente, viajar sozinho e viajar para a Argentina. Eu passei os três meses entre a compra da passagem e a viagem lendo tudo disponível lá, indo desde como seria o vôo (menina do interior que nunca tinha pego avião, saca?) e onde me hospedar até qual era o melhor lugar para fazer o câmbio. Descobri como eu poderia me locomover pela cidade, aprendi frases de sobrevivência em espanhol, comprei um guia da Publifolha muito simpático no qual, com a ajuda do Google Maps, eu marquei todos os lugares que eu queria ir. 

Aproveitei para tirar meu passaporte (não precisa para viajar no Mercosul, mas eu queria e tirei e me deixa), e, no dia 12 de Novembro, saí de casa cedo e fui para o aeroporto com o ônibus que sai do Metro Tatuapé, porque era claro que minha mãe não ia tomar parte naquela loucura. Para tentar amenizar as coisas, fiz um cronograma com todos os lugares que eu iria, coloquei o telefone de onde eu ia me hospedar e prometi que ligava assim que tivesse feito o check-in. Justamente porque eu ia sozinha e meu celular ia ficar desligado, era importante deixar por aqui todas as informações necessárias, né. 
Aliás que eu acho que esse é o grande ponto do lance de ir para qualquer lugar sozinho: não seja burro. Principalmente se for outro país. A verdade é que as circunstâncias vão estar contra você, então você não pode deixar brechas, sabe. Tem gente que viaja sem saber nada, na fé e na coragem, mas se a pessoa for como eu, se for a primeira vez dela e tudo mais, é obrigatório estar muito informado e muito precavido. E ter em mente que, mesmo assim, as chances de que algo dê errado são grandes. A questão toda é não se intimidar por isso, mas também não ser idiota e fazer tudo ao seu alcance para que dê certo. 

No avião, eu comecei a conversar com a mulher do meu lado, que também estava viajando sozinha para ir num festival famoso de música eletrônica que eu sinceramente não lembro o nome. Ela tinha feito tudo "certo": comprado um pacote por uma agência de viagens, deixado tudo na mão deles, contratado um guia para um dos dias e por aí vai. E eu fui falando com ela e em um ponto ela perguntou como eu sabia tanta coisa de Buenos Aires, se eu tinha dito que eu nunca tinha ido lá. Eu fiquei meio perplexa e respondi que, hum, tinha lido e pesquisado? Ela não fazia nem idéia de como sair do aeroporto e chegar na cidade. Vai me dizer que isso é muito mais seguro que viajar sozinho? 

Claro que eu fiquei nervosa quando entrei no táxi e fui chegando na cidade. Eu estava tendo arritmia quando cheguei no hostel, e quase vomitei  (ok, não) quando cheguei no meu quarto e vi os 6 carinhas lá, conversando em inglês  (eles eram de São Francisco). Minha voz tremeu bonito, e o universo falou "E AÍ BRUNA, QUEM É A FODONA QUE FAZ AS COISAS SOZINHA AGORA?". Olha, não sei se a sorte realmente favorece os audazes, ou se o destino escolheu aquele para ser meu momento de muita sorte, mas a sétima ocupante do quarto era uma brasileira, de São Paulo, também viajando sozinha. Quando ela perguntou, no meio daquele momento tenso, "Você é do Brasil?", eu suspirei aliviada, e a viagem começou. 

Melhor viagem de todos os tempos, ok? Indo contra tudo que me disseram, foi muito, mas muito, mas muito divertido. Mais até do que eu esperava. Eu aproveitei cada segundo naquela cidade em que eu não conhecia nada, estava longe e incomunicável com todo mundo que eu conhecia, sem compromisso nenhum e sem obrigação nenhuma. Os meninos do meu quarto não eram ladrões de órgãos nem estupradores em potencial, eu emprestei hidratante e meu carregador de iPod para eles e ~momento confissão~ roubei a água e usei o adaptador de tomada deles. Isso antes de eu descobrir que a água da torneira do banheiro era muito boa e encher minhas garrafinhas por lá. Me perguntaram se eles não eram desorganizados e como era o esquema para tomar banho e olha, a bagunça deles ficou na cama deles, e como a gente tomava banho quando eles estavam na balada, não só não tinha problema como pegávamos o banheiro limpinho. 

Se eu tivesse ouvido o que os outros me falaram, eu nunca teria vivido nada disso. E não importa o que as pessoas pensem, ter ido sozinha foi provavelmente o mais importante. Com qualquer outra pessoa lá eu não teria passado pelos momentos de nervosismo, não teria me obrigado a ignorar meu receio e fazer as coisas que eu queria fazer (tipo pedir instruções de como chegar em algum lugar, pode parecer simples, mas em espanhol foi meio tenso), a ter me conhecido melhor quando eu tive uma crise pessoal no meio de um barco (soa hilário agora, mas se eu não tivesse me mandado parar de frescura poderia ter estragado a viagem). Nossa, essa crise no barco foi a pior. Enfim, se eu tivesse alguém ali comigo o tempo todo, não teria prestado tanta atenção na cidade, em como eram os argentinos, nos hábitos das pessoas e até como as ruas eram limpas. E sei lá, viajar para mim é isso. Não que seja impossível com outra pessoa, mas dependendo da situação você acaba realmente ignorando essas coisas.

Terminados meus míseros quatro dias, eu voltei para São Paulo, e contei tudo para meus parentes e amigos. Eu sei que isso é uma experiência pessoal e não faria diferença para mais ninguém, mas eu vou dizer que inspirada pelo sucesso da minha empreitada, minha chefe resolveu também viajar sozinha nas férias dela, algo que ela antes era meio contra, e também voltou falando como foi a melhor viagem e como teria sido horrível se ela tivesse ficado em casa por falta de companhia. 

Quase ninguém lê esse blog, mas eu fiquei com vontade de escrever isso porque se tiver mais alguém por aí com esse receio (que eu também tinha antes de falar "foda-se, eu é que não passo meu aniversário em São Paulo"), e que estiver lendo isso, vai por mim: é muito melhor enfrentar as desvantagens de ir sem companhia e com baixo orçamento do que não ir, ou ir com pessoas que não sejam muito legais. Até porque seus amigos que são legais aqui podem não ser nada legais em outro país, sabe. Lembre-se de procurar todas as informações primordiais sobre o lugar que você está indo, até mesmo as mais bobas, tipo como sacar dinheiro em outro país e qual é o esquema de gorjetas por lá. E realmente carregue com você números de emergência, e faça um seguro de viagem. Esteja pronto para imprevistos, tenha dinheiro extra para qualquer merda, e vai com fé. 

Para todos os efeitos, pelo menos umas histórias novas você vai ter para contar. 

P.S.: Desde o ano passado, eu venho dizendo que escreveria um post muito detalhado sobre essa viagem. Pois é, não vai acontecer, acho. Mas esse está bem próximo, não?
 
P.S.2: Se alguém estiver se perguntando, a crise no barco não teve nada a ver com problemas técnicos no barco ou com a água ou nada do tipo. Ela teve a ver, hum, com uma foto minha que eu tirei na hora, e, erm, com meu cabelo. Eu disse que foi a pior. Felizmente ela foi controlada quando eu falei "foda-se" e prendi de qualquer jeito.

Eis uma foto pós-crise:
Não percam as esperanças. Se eu consegui, certamente muitas pessoas também conseguem.

Um comentário:

gustavo disse...

tô indo ali comprar minha passagem.
não, não estou indo, mas esse post deu essa vontade.
acho que podemos tirar daí também a lição de que o unidos venceremos não funciona sempre. sozinho, às vezes, a gente também faz coisas extraordinárias e conhecemos nossos limites - alguns é como falar, outros como tirar uma foto, enfim!
o importante é não deixar de fazer, né? e nossa promessa de viajar pra espanha ainda está de pé, viu. eu não guardei dinheiro ainda, mas se for o caso a gente vende o corpo e pede empréstimo da caixa. hahahaha

<3