sábado, 8 de setembro de 2012

A partir desse post, o blog fica fechado para leitores convidados. Se alguém quiser ler (vai que), só entrar em contato de algum jeito. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Você não quer conhecer o futuro

Eram duas irmãs, e costumavam ler a sorte uma da outra.
As duas filhas mais novas, as únicas mulheres. Meio-irmãs, na verdade, mas não era algo que se comentava muito. A mais velha era a mais inteligente, a mais geniosa, a preferida. Não tinha nada que o pai ou os irmãos não fizessem por ela, e ela era linda e livre. A mais nova, bom, era a mais nova. Inferior em beleza e devoção e brilho próprio. Não eram amigas o tempo todo, nem se gostavam o tempo todo, mas eram irmãs.
Ler a sorte nas cartas era algo da família. Algo que a mãe e a avó faziam, e elas tinham aprendido, em algum momento. As outras, mais experientes, mais velhas, se recusavam a tirar cartas para as duas jovens, que então tiravam uma para a outra. Coisas das duas, sentarem-se ali, com o baralho, e se debruçarem tentando encontrar prévias do que ainda viria. Os romances que as aguardavam, os futuros brilhantes que ainda estavam por vir. A mãe dizia, vocês precisam saber aceitar o que vier, e nem sempre será bom, nem sempre será melhor saber antes. Nunca era. Ler a sorte ou era sério ou era distração para pessoas curiosas, e elas eram tão novas.
Elas não ouviam. Era algo complicado, as duas tão próximas, tão envolvidas, tão inexperientes, muitas vezes as previsões das duas se misturavam. Acontecia com uma o que tinham achado que aconteceria com a outra. Nunca não acontecia nada. Eram boas, a mais nova ainda melhor que a mais velha, e a mãe só suspirava quando as duas contavam o que tinham visto e como tinha acontecido.
Viam acontecimentos ruins, apesar das boas previsões serem a maioria. Também, com elas tão jovens, que preocupações e infortúnios poderiam estar pairando sobre elas? Sempre havia uma tensão, uma ansiedade quando a outra começava a puxar as cartas, colocá-las lado a lado. O futuro estava ali, e se elas eram boas de verdade, se algo terrível aparecesse algo terrível se tornaria realidade. Mas no final, relaxavam, aliviadas, todas as vezes. Quase todas as vezes.
Um dia, leram a morte. Algo normal, esperado, o que está vivo tem que morrer, elas não tinham ilusões quanto aquilo. Não era a primeira vez também, conhecidos e familiares distantes morriam, elas previam, e era triste e doloroso mas a vida seguia.
Daquela vez, porém, era diferente. Não era um conhecido que morreria, um amigo, um namorado, ou um tio. Era uma mulher, próxima, próxima demais, e cedo demais. Cabelos negros, pele branca, e podia ser qualquer uma das duas. Elas eram parecidas, o que descrevia uma descrevia a outra, não tinha como saber. Mas era alguma das duas. Uma ou a outra.
Voltaram-se para a mãe. Ela era melhor naquilo, saberia responder. Diria que tinham lido errado, que nem sempre o que as cartas diziam aconteciam, que elas eram fortes e saudáveis. A mãe ouviu, olhou para as duas filhas, suas queridas meninas, tão diferentes, e respondeu que era ela mesma, era claro que era ela. Mas as cartas não dizem tempo, e demoraria, e elas deveriam esquecer e parar de se preocupar. Elas aceitaram, em silêncio, e esqueceram, tentaram esquecer. Pararam de tirar cartas com freqüência, se afastaram, a vida continuou.
A mãe morreu, e não muito depois, a irmã mais velha também. Uma doença lenta, demorada, e antes de morrer ela disse para a mais nova, era eu!, com um sorriso triste.
A vida seguiu, ela já não tirava cartas para ninguém, só as vezes, quase nunca, e sem muita vontade. O futuro não era doce nem promissor, só uma série de decepções, mas ela continuava. Leu a sorte das filhas, das amigas, com uma expressão séria, com um certo pesar, porque aquilo não era mais uma brincadeira entre irmãs – ela não tinha mais uma irmã.
Era um pouco pior quando a jovem era uma menina branca, cabelos negros, futuro promissor, da família. Ela leu com relutância, agoniada com a expectativa da garota, com a ansiedade. Nada de bom acontece, ela pensou, você é jovem e tola.
Viu a morte. Alguém próximo, uma amiga. É da minha família? É a minha irmã?, a garota perguntou, os olhos bem abertos, medo na voz. Não, não era ninguém da família, mas uma amiga. O que eu faço? Ela deu de ombros, o que poderia ser feito? Nada, não tem nada, você aceita, fica triste, a vida continua. Um futuro ótimo, mudanças. Prepare-se para elas. Leve três rosas, me diga o que aconteceu.

A vida continua.

domingo, 2 de setembro de 2012