terça-feira, 3 de dezembro de 2013

infinite jest (I)

Escrever é difícil, complicado. Estou atualmente na longa filmografia de James O. Incandenza, com seus Infinite Jest (I), (II), (III), (IV) e (V) (todos unfinished, unseen), e fazendo uma associação não muito profunda com tudo do DFW que eu já li, concluo que o Infinite Jest, o livro (finalizado e publicado), não foi tanto uma grande obra escrita por um grande autor que era muito bom e simplesmente colocou todos os pensamentos e sentimentos ali, sem grandes dificuldades, porque ele era um gênio e tal, mas um trabalho enorme e árduo de anos e anos, pensamentos e conclusões e retrabalhos infinitos. O que é reconfortante, mas também desesperador. 
Pensando aqui se isso vai se tornar um diário de leitura do livro (como um paralelo ao diário (?) de tradução do Caetano Galindo, tradução essa que eu não vou ler, não quero nem ver, e vem cá, vai ser Infinda Graça mesmo?), e pensando no quão pretensiosa eu seria se fizesse mesmo isso. 
Tenho duas cópias do IJ, uma no Kindle, outra em papel, essa última um presente de aniversário da Talita. Presente esse que foi o melhor dos presentes nos piores dos dias, o que consolida que, entre meu gênio terrível e diversos outros defeitos, eu tenho uma sorte do caralho de ter amigos assim. Enfim, ela disse que não sabia se eu ia gostar (é, sei), e tinha comprado com a intenção que eu fosse trocar por alguma outra coisa depois. Disse também que a outra solução que tinha passado pela cabeça dela fora comprar o álbum novo da Avril Lavigne, me obrigando assim a ir lá e trocar por outra coisa, e me isentando da culpa associada a trocar um presente de aniversário. Talita, esse ser adorável.
No fim, acabou que eu troquei mesmo um dos meus presentes pelo box de Twin Peaks, o que também é relacionado ao assunto porque eu me empolguei para ver depois de ler o DFW falando sobre o David Lynch - na verdade, o DFW acompanhando alguns dias de filmagem de um filme do David Lynch, e obviamente falando mais sobre o David Lynch e sobre ele mesmo do que sobre o filme, ou a filmagem em si. 
Para ilustrar o post, uma foto do DFW novinho que eu achei pesquisando sobre Infinite Jest mas tentando evitar spoilers:
Algumas pessoas me conhecem por eu geralmente estar pouco me fodendo para spoilers, e pior, ir pró-ativamente atrás deles. Mas em um desses textos que eu li enquanto pesquisava sobre o livro, o autor ressaltou que era importante ler o IJ na ordem certa, simplesmente porque era a ordem que o DFW tinha criado e imaginado para o livro. Quando comentei isso com uma amiga ela disse "Então você respeita a ordem que ele criou, mas a de nenhum outro autor?". E essa palavra, sabe. Respeito.
Ainda no mesmo texto sobre o IJ (na verdade, um pequeno guia), o autor fala sobre o paralelo entre IJ e Hamlet, mas não se aprofunda no assunto, imagino eu que com a intenção de o próprio leitor ir atrás de estabelecer a relação. Estou trabalhando nisso e, para tal, escrevendo pequenas anotações a lápis no meio do livro (eis a importância de ter o exemplar em papel). Mas como fica tudo muito perdido e complicado, comecei a usar também o Moleskine* para organizar as anotações e também ir marcando mais ou menos quem já pareceu e o que a pessoa faz, porque socorro, é muita gente.

*Cabe aqui o questionamento: o que é pior, ter um Moleskine ou chamá-lo assim ao invés de falar simplesmente caderninho**?

**O que me lembra que, no Getting Away from Already Being Pretty Much Away from It All, o DFW fala que esqueceu de levar um caderno para as anotações que ele precisaria fazer, então parou num posto de gasolina (acho) e comprou o que achou, que era um caderninho com o Barney na capa. Adorkable, sim, mas também um shout out para gente que gasta 10 dólares num caderninho sem graça achando que vai estimular a criatividade (sou dessas, admito, não sem uma certa vergonha).
Adicione também aos recursos utilizados para a leitura um grifa-texto para marcar minhas passagens favoritas, um bloquinho de post-its fluorescentes para marcar no livro onde essas passagens estão e dois marcadores de página (um para o texto, outro para as notas), e tente visualizar o que sou eu lendo esse livro em casa. Porque eu ainda não cheguei ao ponto de achar razoável jogá-lo na mochila e tentar abrir no trem, em pé, para isso eu uso o exemplar no Kindle mesmo.
Ler Infinite Jest é, em si, um trabalho (no sentido de you work on it, acho que perde a conotação quando traduzido). Claro, um trabalho não tão grande quanto escrevê-lo, mas mesmo assim, exige uma certa dedicação e metodologia. Não é tão difícil quanto as pessoas dizem ser, ou fazem parecer (acho que inclusive para valorizar o próprio esforço e dedicação), mas talvez eu encare assim porque já tinha lido bastante coisa do DFW antes de pegar o IJ, e de certa forma já estava acostumada com a verborragia dele, parágrafos enormes, notas e mais notas, períodos longos e cheios de orações.
Antes de eu desativar o recurso, o Kindle dizia que eu estava em 5% de progresso no IJ. O que é ruim, porque parece que eu já estou lendo há tempos e não li quase nada, e é bom, porque quer dizer que eu ainda tenho muito tempo de IJ pela frente, mas é ruim, porque eu penso que vou passar o resto da vida para conseguir terminar, e ainda assim é bom, porque também quer dizer que ainda tem bastante espaço para ele desenvolver e explicar o que está acontecendo, o que é ruim porque significa que, em algum momento, o livro vai acabar. 
Eu tinha a mesma sensação lendo Wind-up Bird Chronicle, do Murakami, um livro bem menor e mais simples, se comparado ao IJ. Quando eu de fato terminei o Wind-up, voltando de um concerto da OSESP num sábado depois da faculdade, eu fiquei desolada por alguns segundos, até eu voltar ao início e começar a ler de novo, e era (e é) um livro tão bom, e o Murakami era (e é) um dos meus autores favoritos. Eu também tinha a mesma sensação lendo Ada, do Nabokov, um livro menor ainda, mas não tão simples, e quando eu terminei e tive que devolver para a biblioteca, eu fiquei desolada pensando em como arranjaria uma cópia para mim, até eu ganhar uma de presente, também em um aniversário. E o Nabokov era (e é) um dos meus autores favoritos.
David Foster Wallace talvez seja meu autor favorito.

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